Mensagem de Bezerra de Menezes

Meus filhos!

Que Jesus nos abençoe!

Hoje, como ontem, o testemunho à fé que esposamos constitui-nos a coroa de identificação com o Cristo Jesus. Certamente, não mais defrontaremos as arenas para o holocausto público, nem o cárcere de vergonha para a demonstração de nossa convicção religiosa; em verdade, não passaremos pela humilhação da desonra, nem seremos constrangidos ao exílio, separados da família e da pátria como outrora.

Não obstante haverem mudado as aparências, as estruturas permanecem as mesmas, assoladas pela vérmina da incompreensão, gerando dificuldade e contaminação.

O verdadeiro discípulo do Evangelho traz, ínsita no coração, a cruz do Cristo.

Cristão sem cruz pode ser considerado alma que se dissociou do corpo, ou corpo que perdeu a alma.

Para que haja a cristificação do discípulo, ser-lhe-á inevitável a crucificação, que agora não se dará nas traves visíveis do madeiro da infâmia, porém, no roteiro ignorado da renúncia; na imolação do ego dominador; mediante o sentimento de solidariedade que supera as aflições e do devotamento à causa do bem, acima de quaisquer conveniências.

Os cristãos primitivos, quando foram vítimas do Edito de Milão, em 13 de junho de 313, firmado por Constantino, tornando do Estado a mensagem do Cristo como religião, compreenderam que, naquela aparente momento de glória, tinha início o ocaso da fé. Porquanto, o ideal libertador do Evangelho exigia o adubo do sacrifício, e, no instante em que o martírio cedia lugar à homenagem momentânea da honra efêmera da Terra, a palavra se descoloria e o exemplo se alterava, culminando, tal decadência, em 1870, com a infalibilidade papal.

A mensagem do Cristo, amortalhada pelo dogmatismo, cedia lugar às injunções lamentáveis da arbitrária dominação transitória dos homens, vinculando as exigências do Espírito, pela renúncia, às futilidades do corpo na opulência...

A Doutrina Espírita, restaurando a pureza do Evangelho, faz renascer a honra do martírio.

Antes, a chalaça e a zombaria, o sarcasmo e o mergulho na dor, assinalavam o ideal espiritista, martirizando o coração dos servos renovados, a fim de compreenderem que a necessidade do testemunho seria o seu sinal de identificação com o Glorioso Companheiro da sepultura vazia.

E, hoje, meus filhos, quando o mundo nos observa, nos acompanha e nos abre as portas da facilidade, mediante honrarias e glorificações, fugazes que se aproximam do nosso trabalho, não nos deixemos fascinas pelos ouropéis, pelas frivolidades, mantendo a nossa fidelidade ao conteúdo austero da mensagem do Senhor, de que Allan Kardec se fez vexilário e excelente Codificador, até agora insuperado.

Certamente, não vos exigirão demonstrações públicas de fé através dos monumentais testemunhos que comovem multidões, mas, a vida vos imporá renúncias renteando com as tentações. Ser-vos-á solicitada a manutenção dos ideais, muitas vezes, diante da incompreensão e do opróbrio, traduzindo o vosso sentimento de amor ao Rabi inesquecível.

Perseverai, zelando pela fraternidade; pontificai na união, para que a Unificação de propósitos e de identidade espiritual permaneça sem qualquer alteração.

Compreendei que a mensagem cristã é desafio que testa a resistência moral e as fibras do caráter daqueles que se lhe vinculam em santificada e espontânea escravidão.

Tornastes-vos escravos do Cristo por opção pessoal.

Tendes entregado o coração a Ele mediante o sentimento superior, de abnegação e devotamento.

Não receeis, seja qual for a circunstância!

Fazei que brilhe a vossa luz em forma estelar, deixando pegadas como setas luminosas apontando roteiro seguro para os que vêm atrás.

Apontais hoje, em vossas elucubrações, os pioneiros que vos antecederam como exemplos inesquecíveis. A posteridade terá em vós outros, da mesma forma, os exemplos, assinalando esta era de transição, quando se apagam as luzes do século e se encerra este ciclo.

Fostes convocados, honoravelmente, para testemunhar Jesus.

Espiritismo e Cristianismo são termos de mesma equação da vida.

Nunca vos aparteis de Jesus, seja qual for o tributo de vós exigido.

Jesus, meus filhos, é o nosso caminho de acesso ao Pai; é o modelo incorruptível, em Quem encontramos o alimento e a resistência para a vitória na luta.

Os vossos testemunhos serão mais severos do que os daqueles pioneiros de outrora.

Eles davam a vida num momento. Vós outros tendes que doa-la, por momentos sucessivos, nos quais vos desgastareis, lentamente, qual o combustível que, atendendo à lâmpada que derrama claridade, também se consome.

Consumi-vos, iluminando as consciências com a mensagem espírita.

Ouvimos, muitas vezes, as vossas rogativas e movimentamo-nos, afetuosamente, ao vosso lado, irmanados no ideal, compreendendo as vossas dificuldades, porque somos egressos do corpo e também as experimentamos aí.

Noutros ensejos, transladamo-vos para a nossa esfera, a fim de refundir-vos o ânimo, estimular-vos a coragem e a perseverança diante das dificuldades domésticas, sociais, no campo da fraternidade, que se vos tornam quase insuportáveis, para vos afirmamos: Estamos juntos; ide adiante, mantendo o ela de identificação, uns com os outros, Entidades e instituições, sob a Presidência de Ismael, o Anjo tutelar do Brasil, a quem o Mestre delegou a tarefa de preservar o seu Evangelho sob as luzes abençoadas do Cruzeiro do Sul...

Espíritas, não vos prometemos as alegrias que o mundo oferece. Não vos acenamos com as honrarias que passam. Repetiremos, parafraseando Jesus: Na vivência da Doutrina Espírita tereis aflições, porque não se pode negligenciar com a verdade, conivir com o crime. Passareis incompreendidos, em razão da vossa fidelidade à mensagem libertadora e isso será o vosso martírio.

Não vos preocupeis por chorardes hoje, porque sorrireis mais tarde.

Crede, em nossas palavras, nenhum devaneio masoquista, nenhuma tinta de ordem sadista. Sucede que, todo aquele que elegeu Jesus, já não tem para quem ir e somente com Ele à frente marchando, logra a plenitude da felicidade.

Perseverai, portanto!

Exoramos ao Mestre Divino que nos abençoe e que nos dê a sua paz, de que tanto necessitamos. São estes os votos do servidor humílimo e paternal de sempre.

Bezerra

(Palavras psicofonicamente recebidas por Divaldo Pereira Franco na FEB, em Brasília, na Reunião Ordinária dos CFN, em 07.11.1987, às 12 horas – publicado em “Reformador” de Fevereiro de 1988)

Glossário:

 
Chalaça: dito zombeteiro ou mordaz;
Elucubrar: dedicar-se a longos trabalhos intelectuais;
Exorar: implorar com instância, suplicar;
Ínsita:inserido, implantado, inato;
Rentear: cortar, rente, galantear, namorar;
Vérmina: verminose;
Vexilário: entre os Romanos, aquele que levava uma insígnia, porta estandarte.