Exageros

Não há como negar-se a expressiva massa de informações que diariamente eclodem na mídia, decantando as glórias da conquista tecnológica.

De todo lado surgem as invenções que deslumbram, oferecendo comodidade, bem estar, e minorando inúmeras penas que antes afligiam a criatura humana e levavam-na à desesperação.

As indústrias da futilidade, estimuladas pelo consumismo do mercado, abarrotam com aparelhos inúteis os lares, ao tempo que fomentam a busca de coisas sem significado como forma de autorealização, como mecanismo de exibição.

Mentes audaciosas antecipam o futuro, sempre imprevisível, oferecendo equipamentos sofisticados, que favorecem o progresso, emulam à pressa e facilitam a comunicação, o intercâmbio...

Simultaneamente, apresentam-se aberrações chocantes, que conspiram contra o equilíbrio humano, empurrando os sentimentos para os fossos da amargura ou para os apertados corredores da loucura.

Os disparates competem com as grandiosas realizações em paradoxos surpreendentes, que fascinam e perturbam, dificultando o discernimento do ser.

A habilidade mental manipula os indivíduos com a mesma facilidade com que algumas das suas máquinas pretendem substituí-los, gerando desemprego, anarquia e revolta...

Promessas mirabolantes, em nome da neurolinguística e da cromoterapia, apresentam-se como solucionadoras de todos os problemas e enfermidades, desenhando e propondo felicidade, poder, saúde e fortuna com leviandade cruel.

As legiões de enganados por algum tempo logo tombam em tormentos e depressões maiores do que aquelas das quais pretendiam libertar-se.

Fanfarras de todo tipo se misturam a fantasias e mentiras bem urdidas, envolvendo o reino dos Céus e a plenitude espiritual em arremetidas de ridículas formulações religiosas, enganando e vendendo venturas impossíveis de serem adquiridas por esses métodos venais.

A mentira tenta imitar a verdade e imiscuir-se em muitos círculos da responsabilidade.

Nesse contubérnio comportamental e no referido facilitário espiritual, criaturas inescrupulosas aderem ao Movimento Espírita e trazem para a seara informações esdrúxulas, revelações absurdas, comportamentos exóticos ao gosto dos insensatos, que desfiguram a imagem da verdade, ambiciosos e aventureiros, buscando o exibicionismo barato e a promoção do ego, em detrimento dos deveres austeros que a Doutrina propõe e o seu compromisso estabelece como impostergável.

Lentamente vai desaparecendo o espírito de seriedade e gravidade para que se estabeleça a postura ligeira, descomprometida com o Espiritismo, que é Doutrina para homens e mulheres sérios, responsáveis, interessados na verdade e na autoiluminação.

Para ser divulgada, a Doutrina Espírita não necessita de exageros, de inverdades, de mecanismos promocionais perturbadores. Ciência de investigação que é, as suas informações dispensam arremedos explicativos, exigindo a linguagem dos fatos largamente comprovados no passado como no presente por investigadores eméritos, sinceros, graves e responsáveis.

Todos aqueles que tentaram mistificar as suas manifestações mediúnicas, imita-las, impressionar, foram desmascarados, por quanto a impostura não encontra lugar nas fileiras honoráveis da realidade.

A sua filosofia profunda não pode ser apreendida de um golpe, razão pela qual exige estudo, reflexão, vivência, a fim de poder tornar-se um comportamento saudável.

A sua proposta religiosa apóia-se no pensamento de Jesus e dos Seus apóstolos, como técnica vivencial e libertadora, abrindo espaços para o amor, a humildade, a caridade...

Porque não é conhecido realmente por esses oportunistas que se exibem em nome da sua divulgação, sobrepor-se-lhes-á, à medida que o tempo passe, desacreditando-os, em razão da fragilidade da fé que parecem possuir, não resistindo aos inevitáveis testemunhos a que serão chamados, porquanto não passarão incólumes ao vendaval das paixões nem às circunstâncias do processo evolutivo do Planeta como deles mesmos.

Torna-se indispensável, portanto, que se esteja vigilante, assumindo atitude de cautela e de severa observação, não se permitindo iludir pelos exageros e pelos aficionados das ilusões, que vivem à custa do suor alheio, desrespeitando a lei do trabalho, em nome de missões que se atribuem indevidamente, esquecidos que o Pai até hoje trabalha como anunciou Jesus, sendo Ele, por isso mesmo, o Trabalhador Incansável por excelência.

O Espiritismo permanecerá imaculado, não obstante os exageros e as irrisões deste momento, por encontrar-se bem delineado na Codificação, que sobreviverá aos seus falsos divulgadores como conseguiu superar os seus detratores do passado, aqueles que tentaram criar-lhe os mais grosseiros e insanos impedimentos.

Vianna de Carvalho

(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, em 6 de setembro de 1995, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador-BA, publicada em “Reformador” de FEV/1996)