Allan Kardec, O Conquistador Indomável

Não havia passado muito tempo, e permaneciam no cenário religioso da França os efeitos da rebeldia de Lamennais, Montalembert e Lacordaire, que anelavam por prevalecerem os ideais de Deus e liberdade, severamente reprochados pelo papa Gregório XVI, que desaprova e reprova todas as doutrinas relativas à liberdade civil e política, que possam ameaçar a dominação da Igreja que prega aos povos a obediência e aos soberanos a justiça.

Inconformado, Lamennais desafiou a proibição e foi privado dos privilégios e poderes sacerdotais, quando se libertou do jugo da Igreja e do imperador, apoiando, mais tarde, a Revolução de 1848, que pretendia destituí-lo do trono.

Conduzido à prisão, mais tarde desencarnou, em 1848, sendo enterrado no Père-Lachaise, numa Quarta-feira de Cinzas, conforme seu desejo, em uma cova simples e comum, a fim de repousar entre os pobres...

Embora ainda se estivesse no Século das Luzes, caracterizado pelo período histórico-filosófico profundamente racionalista, Luís Filipe governava com arrogância, apoiado pela Igreja, vigiando quaisquer tentativas de apeá-lo do poder, ou alterar as estruturas culturais vigentes. A intolerância religiosa encontrava-se por toda parte, ameaçadora e perversa, tentando impedir o desenvolvimento científico e filosófico que estrugia com volúpia nas academias e universidades.

O materialismo, porém, sorrateiro e desafiador, inscrevia, desde há muito, na mente dos pensadores e investigadores a negação, transformando as claridades do Iluminismo em recurso de libertação dos dogmas ultramontanos e das tradições religiosas insensatas, que não mais os convenciam dos seus significados.

Pairavam nos meios intelectuais os conflitos de idéias e de comportamentos, que iriam transformar-se em conclusões positivistas a respeito de tudo quanto pode ser testado, desprezando todas as informações que não resistissem às experiências de laboratório, particularmente aquelas de natureza metafísica...

Foi nesse campo, inçado de dificuldades, que Allan Kardec se entregou às pesquisas em torno da existência de Deus, da imortalidade da alma, da comunicabilidade dos Espíritos, da reencarnação, do renascimento da doutrina de Jesus, desde quando convidado pelos imortais, passando a enfrentar todo tipo de ameaças e desafios de toda ordem.

Espírito forjado na têmpera do aço moral, sentia-se vinculado ao ministério grandioso, e, por isso, não temia, entregando-se de corpo e alma à investigação e ao estudo dos fenômenos mediúnicos, dos quais extraiu as respostas lúcidas para as interrogações que afligiram as criaturas humanas através dos tempos.

Incompreendido por uns e malsinado por outros, o combatente não se permitia apresentar justificativas pessoais, nem desperdiçava o tempo em discussões inúteis, antes aplicava-o na observância e relacionamento dos fatos comprovados, anotando e selecionando aqueles que podiam resistir a quaisquer críticas ou acusações.

Preparado para a gigantesca tarefa, laborava dia e noite com afã, convencendo-se da realidade do mundo extracorpóreo, da sobrevivência da vida à disjunção molecular do corpo, do significado psicológico profundo da existência terrena.

Com esses elementos, encontrava-se equipado para demolir as novas construções do materialismo e as antigas do clericalismo, oferecendo uma visão correta em torno do ser humano, do seu destino, das ocorrências que lhe sucedem e, sobretudo, a respeito da vida e da Criação.

Travava uma batalha silenciosa e árdua, dirigido pelo pensamento de Jesus e dos Seus ministros, para preparar o advento da Era Nova do Espírito imortal, quando novos conceitos poderiam ser apresentados ao mundo, dando lugar a outros comportamentos ético-morais, políticos, sociais e humanistas...

Acuado por invejosos de alta monta e inimigos desencarnados, não descansava, não desanimava, prosseguindo na busca dos diamantes da verdade, qual garimpeiro indômito que avança, caverna adentro, seguindo o veio denunciador das gemas preciosas...

Aplicando contínuos dias e noites na limpeza da ganga jungida aos metais de incomparável beleza, reuniu-os em um diadema de valor inestimável, formando a obra que ficou imortalizada após a sua publicação, no dia 18 de abril de 1857, na Paris das glórias mundanas e culturais, das conquistas incomuns do pensamento e da razão.

O Livro dos Espíritos surgiu como um diamante estelar no zimbório do pensamento terrestre e projetou claridade incomparável nos intrincados problemas que diziam respeito ao ser humano, à vida e à realidade existencial.

Inutilmente levantaram-se opositores que agrediram o autor da obra, incapazes de apresentar quaisquer pontos vulneráveis no conteúdo vigoroso dos conceitos expostos.Urdiram-se intrigas vergonhosas, envolvendo o nome do insigne trabalhador, sem que tenham identificado quaisquer incoerências nos textos por ele publicados, sejam de autoria dos Espíritos ou da sua própria lavra, da sua reflexão.

O gigante não se afligiu, não se atemorizou, em momento algum, prosseguindo na sua condição de artífice do bem e do amor na Terra, através do conhecimento da verdade, que se encontra ao alcance de todos aqueles que tenham interesse em ser felizes.

A doutrina exposta nessa obra granítica oferece contribuição indispensável aos vários ramos do conhecimento, seja aos que dizem respeito aos arcanos da Antropologia como às estruturas da Sociologia, em referência às conquistas das ciências psíquicas, tanto quanto ao pensamento filosófico, argamassada com as inestimáveis formulações da lógica e da razão, defluentes das confirmações nos laboratórios de investigação e observação sistemática.

Iniciando o temário sobre Deus e o Universo, prolongou-se pelo exame do espírito e da matéria, pelos notáveis fenômenos da morte e da reencarnação, das comunicações espirituais, das interferências dos desencarnados com os habitantes do corpo físico, passando aos notáveis postulados das leis morais, culminando nas esperanças e consolações com um elenco de preciosos itens que iluminam a mente e consolam o coração.

Portador de uma lógica de bronze, exigente na análise de cada informação, não se contentava com a resposta que recebia dos imortais, volvendo ao tema, diversas vezes, até torná-lo perfeitamente compatível com o entendimento humano e resistente ao bisturi da dúvida e da negação.

Por conseqüência, a obra recebeu o aplauso de homens e mulheres sinceros, estudiosos dos problemas humanos, da ciência e da razão, da fé religiosa e da ética, sendo recebida como uma resposta dos Céus às aflições dos seres humanos da Terra...

Marco histórico no pensamento filosófico, O Livro dos Espíritos permanece tão atual quanto naqueles heróicos dias em que apareceu na Galeria d'Orléans, na inesquecível Livraria Dentu.

Cento e cinqüenta anos transcorridos desde aquele inesquecível dia, e continua desafiador, profundo na sua simplicidade, completo na sua singeleza, esclarecendo dezenas de milhões de pessoas que o compulsam, ávidas de esclarecimentos e de diretrizes de segurança para o equilíbrio e para a felicidade, a todos atendendo conforme os diferentes níveis culturais e de consciência, em que estagiam, avançando no rumo do futuro iluminado pela verdade.

Feliz por haver-me banhado na água lustral da sabedoria que dele verte, quando me encontrava na indumentária carnal, saúdo-te e homenageio-te, mensageiro de Jesus Cristo para a libertação das consciências terrestres!

Vianna de Carvalho

(Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, no dia 24 de dezembro de 2006, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.)