70 - Solidão


 
"O presidente, porém, disse: - mas, que mal fez ele? E eles mais clamavam, dizendo: - seja crucificado." - (Mateus, 27:23).
 
À medida que te elevas, monte acima, no desempenho do próprio dever, experimentas a solidão dos cimos e incomensurável tristeza te constringe a alma sensível.
 
Onde se encontram os que sorriram contigo no parque primaveril da primeira mocidade? Onde pousam os corações que te buscavam o aconchego nas horas de fantasia? Onde se acolhem quantos te partilhavam o pão e o sonho, nas aventuras ri dentes do início?
 
Certo, ficaram...
 
Ficaram no vale, voejando em círculo estreito, à maneira das borboletas douradas, que se esfacelam ao primeiro contacto da menor chama de luz que se lhes descortine à frente.
 
Em torno de ti, a claridade.. mas também o silêncio...
 
Dentro de ti, a felicidade de saber, mas igualmente a dor de não seres compreendido...
 
Tua voz grita sem eco e o teu anseio se alonga em vão.
 
Entretanto, se realmente sobes, que ouvidos te poderiam escutar a grande distância e que coração faminto de calor do vale se abalançaria a entender, de pronto, os teus ideais de altura?
 
Choras, indagas e sofres...
 
Contudo, que espécie de renascimento não será doloroso?
 
A ave, para libertar-se, destrói o berço da casca em que se formou, e a semente, para produzir, sofre a dilaceração na cova desconhecida.
 
A solidão com o serviço aos semelhantes gera a grandeza.
 
A rocha que sustenta a planície costuma viver isolada e o Sol que alimenta o mundo inteiro brilha sozinho.
 
Não te canses de aprender a ciência da elevação.
 
Lembra-te do Senhor, que escalou o Calvário, de cruz aos ombros feridos. Ninguém o seguiu na morte afrontosa, à exceção de dois malfeitores, constrangidos à punição, em obediência à justiça.
 
Recorda-te dele e segue...
 
Não relaciones os bens que já. espalhaste.
 
Confia no Infinito Bem que te aguarda.
 
Não esperes pelos outros, na marcha de sacrifício e engrandecimento. E não olvides que, pelo ministério da redenção que exerceu para todas as criaturas, o Divino Amigo dos Homens não somente viveu, lutou e sofreu sozinho, mas também foi perseguido e crucificado.