Que vos ameis uns aos outros...

Que vos ameis uns aos outros;
como Eu vos amei a vós

João, 13:34

Na comemoração da páscoa, despedindo-se de seus discípulos, Jesus deixa o ensinamento que marca o novo tempo por Ele inaugurado: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. João, 13:31 a 35.

Esta regra, já presente em Moises, é “nova” pela perfeição a que Jesus lhe dá e porque constitui o marco de um novo tempo, inaugurado e revelado pela vinda do Mestre.

E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do pacto, que por muitos é derramado. Marcos, 14:23 e 24.

Jesus fala do pacto, aliança. É um termo que os Apóstolos não têm dificuldade em compreender, porque pertencem ao povo com quem Javé, estabelecera o antigo pacto durante o êxodo do Egito (Êxodo, capítulos 19 a 24). Estão, ainda, perfeitamente presentes na sua memória, o Monte Sinai e Moisés, que dessa montanha descera trazendo a Lei divina gravada em duas tábuas de pedra.

Eles não esqueceram que Moisés, tomando o "livro da aliança", o leu em voz alta e o povo concordou declarando: "Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos" (Êxodo, 24:7). Assim, estabeleceu-se um pacto entre Deus e o seu povo, selado no sangue de animais imolados em sacrifício. Por isso, Moisés aspergiu o povo, dizendo: "Este é o sangue da aliança que Javé faz convosco, através de todas estas cláusulas". Êxodo, 24:8.

Portanto, os Apóstolos compreenderam a referência à antiga aliança. Mas o que entenderam desse novo pacto? Certamente muito pouco. Por isso deixa-lhes prometido a vindo do Paráclito – consolador em grego – não só para recordar tudo o que já havia sido dito, mas, também, para ensinar-nos todas as coisas. João, 14:26.

O foco central de seu legado é o amor.

Amor, segundo o dicionário Aurélio, é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma causa.

Não podemos esquecer que o Novo Testamento foi escrito em grego, e para a linguagem grega, amor tem três significados:

1. Eros - é o amor como atração física, pessoal, que leva as pessoas a se apaixonarem um pelo outro. Não significa necessariamente atração sexual. Para Platão, eros era também uma forma de contemplação de todas as belezas, do corpo, da alma, da natureza. Tudo isso pode ser uma forma específica de amor.

2. Philos - Esta palavra quer dizer amizade que pode ser entre duas pessoas, entre pais e filhos, entre amigos, mas não é algo superficial e sim verdadeiro e profundo que inclui virtude e lealdade.

3. Agape - Esta palavra significa amor-entrega, amor-doação, amor incondicional. É o amor como gesto de desprendimento pessoal, de oferta da própria vida, um gesto que não procura retribuição ou qualquer recompensa.

Qual é o sentido profundo da palavra amor, para cada um de nós? Claro que deve sempre ser um amor de doação, porque o ardente amor cobre uma multidão de pecados. (I Pedro, 4:8). Entretanto, hoje, é uma palavra tão banalizada, tão usada para designar relações egoístas e hedonistas.

Antes de qualquer outra coisa, o amor é o sentimento restaurador da nossa relação filial para com o Pai firmando em nossas vidas a importância de sermos filhos amados por Deus.

O amor é a expressão mais completa da caridade. Paulo assim o define em carta aos cristãos de Corinto. (I Coríntios, 13:1 a 7).

A recomendação, de nos amarmos uns aos outros, é uma constante no ministério de Jesus. Está também em João, 15:12, Mateus, 22:34 a 40 e, como a Bíblia não se contradiz, em I João, 4:7 a 10.

Que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei a vós”, disse Jesus. Como Ele nos amou? Como entender esse amor em sua plenitude? Seguindo as pegadas do Mestre.

O amor resume os deveres mútuos. Como exigir do nosso próximo melhor proceder que o nosso? Mateus, 7:12. Não estamos isentos de falhas.

Um amor que aceita o outro; respeitando os limites e as falhas alheias; indefinidamente. Mateus, 18:21 e 22.

Um amor que, segundo o reto juízo, não julga as pessoas pela aparência, mas os seus atos. João, 7:24.

Jesus nos pede para evitarmos o julgamento:

•    Tendencioso: baseado em preconceitos e preferências;

•    Precipitado: sem as informações completas;

•    Severo: análise sem misericórdia e amor; e

•    Insensível: devemos procurar ver sempre o melhor em qualquer situação.

Houve época em que os gregos faziam os seus julgamentos no escuro. Faziam-se as acusações, as defesas e os julgadores proferiam a sentença sem saber de quem se tratava. Dessa forma, pensavam o julgamento ser mais justo.

Um amor que não espera nada em troca; é mais benevolente e devotado. Lucas, 23:34.

Ao rogar: “Pai, perdoa-lhes;” colocando-se na qualidade de nosso irmão, intercede, junto a Deus, por seus algozes, afirmando-nos, de forma inquestionável, que somente ao Pai compete o nosso julgamento.

Um amor que se aproxima de quem é diferente sem os preconceitos de toda sorte. Marcos, 2:17.

Um amor que vê o próximo sempre como irmão, portanto, tende à destruição do egoísmo.

Moisés em Levítico, 19:18, adverte sobre a necessidade da unificação do povo Hebreu.

Levítico é um dos livros do Pentateuco de Moisés e é especialmente dirigido à Tribo de Levi, responsável pelo transporte do Tabernáculo, posteriormente pelo Templo, pelo zelo dos ricos Santuários e pelo preparo dos materiais necessários aos cultos.

Basicamente um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possui, ainda, em seu texto, o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião.

Note-se, portanto, que é um livro dirigido aos Hebreus. Dessa forma quando, no versículo acima, Moisés diz que “não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo". é o mesmo que dizer: “Hebreu não vingará e nem guardará ira conta Hebreu, mas amarás o Hebreu como a ti mesmo”. Naquela época, este conselho fazia sentido, uma vez que era necessário para manter a união do povo Hebreu.

Jesus resume bem este sentimento ao dizer: "Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo". Mas o mestre dando novo sentido à lei e aos profetas (Mateus, 5:17) recomenda: "Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem". Mateus, 5:43 e 44.

Com relação a amar aos inimigos. Allan Kardec no capítulo XII, item 3 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, nos esclarece:

“Se o amor ao próximo constitui o princípio da caridade, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio, porquanto a posse de tal virtude representa uma das maiores vitórias alcançadas contra o egoísmo e o orgulho.

Entretanto, há geralmente equívoco no tocante ao sentido da palavra amar, neste passo. Não pretendeu Jesus, assim falando, que cada um de nós tenha para com o seu inimigo a ternura que dispensa a um irmão ou amigo.

Amar os inimigos não pode, pois, significar senão que nenhuma diferença se deve estabelecer entre eles e os amigos. Se este preceito parece de difícil prática, impossível mesmo, é apenas por entender falsamente que ele manda se dê no coração, assim ao amigo, como ao inimigo, o mesmo lugar.

Amar os inimigos é não lhes guardar ódio, sem rancor, nem desejos de vingança; é perdoar-lhes, sem pensamento oculto, e sem condições, o mal que nos causam; é não opor nenhum obstáculo à reconciliação com eles; é desejar-lhes o bem e não o mal.”

Um amor que se coloca ao serviço com humildade; um amor que perdoa e é perdoado. Mateus, 6:12.

Um amor que tem esperança, desde que nos conciliemos com os nossos adversários enquanto caminhos juntos para não sermos julgados pelo juiz e não sermos presos. Mateus, 5:23 a 25.

Neste passo simbolicamente temos:

•    Caminho = A presente encarnação;

•    Juiz = A nossa consciência (Questão 621 de LE);

•    Oficial = A dor e, muitas vezes, ao remorso e, posteriormente, à depressão;

•    Prisão = o processo obsessão.

Reflexões finais

Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu. I João, 4:20.

E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Mateus, 5:47

Jesus, envolva-nos com o seu infinito amor para que possamos aprender a amar.

Marcos José Ferreira da Cruz Machado
Belo Horizonte (MG)
AGO/2009