A Páscoa do Senhor

Existe, entre alguns segmentos do movimento cristão, a dúvida quanto à utilização de vinho, por Jesus em sua ceia.

Dessa forma, em observância ao ensinamento que a Doutrina dos Espíritos nos dá ao ter profundo respeito pelo livre arbítrio, ao propor escrever o presente artigo, longe estou de fazer apologia do uso ou não do álcool.

Ao lembrar da lição do Apóstolo dos Gentios aos gregos de Corinto, “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm”, I Coríntios, 6:12, tentarei, tão somente, fornecer subsídios para que a nossa capacidade individual de autodeterminação seja levada pelo raciocínio e não pelo fanatismo.

Como surgiu a Páscoa

Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção.

Gênesis 12:1 e 2

O Patriarca Abrão foi eleito pelo Senhor para ser o chefe de um povo, devendo sua incontestável fé ser levada até as últimas conseqüências e sua descendência numerosa “como as estrelas do Céu”.

O Senhor ordenou a Abrão, “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar”. Essa ordem tem duas partes:

  1. Sair de tua terra significa renunciar a tudo o que o homem tem de mais caro na terra: pátria, parentes, casa paterna. O Senhor arranca assim violentamente todas as suas antigas relações e ao perigo de idolatria, aquele de quem Ele quer se servir para fundar uma raça nova e espiritualizada.
  2. E vai para a terra que Eu te mostrar. Terra que uma revelação ulterior deverá determinar.

O Senhor estava reservando a Abrão a missão de receber e encaminhar um dos grandes grupos dos exilados da Capela: os Hebreus. (1)

Começou então para o futuro patriarca uma longa peregrinação.

Os habitantes de Ur eram idólatras e adoravam toda fonte de calor simbolizada pelo sol, astros e sobre tudo pelo fogo. Talvez tenha sido por isso que o Senhor ordenou que Abrão de lá saísse com sua família, para que sua fé não corresse risco. Com sua esposa Sarai, seu pai Taré e o sobrinho Lot, Abrão deixou a cidade de Ur, para estabelecer-se em Haran, na Mesopotâmia.

Posteriormente vai para onde é hoje o Estado de Israel. Ali passa a viver como seminômade. Diante dessa condição, de não se fixar por muito tempo em determinado lugar, tem como principais atividades, o artesanato, o pastoreio e a agricultura de curto período agrícola.

Região de manifestações climáticas com extremos bem definidos, inverno de temperaturas muito baixas e verão de calor escaldante, a passagem do inverno para a primavera, dava-lhes uma sensação de liberdade, merecendo, por isso mesmo, uma comemoração, porque as mudanças e as movimentações, quando ocorriam no inverno, eram feitas com grande sacrifício.

Páscoa, em hebraico Pessach, significa passagem. A palavra Páscoa advém exatamente do nome em hebraico da festa judaica que comemorava a passagem do inverno para a primavera, ou seja, a “passagem para a liberdade”.

O que a princípio era uma festa folclórica, passa a ser uma festa toda revestida de rituais religiosos, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Êxodo.

De acordo com a tradição, a primeira celebração de Pessach ocorreu há 3.500 anos, quando de acordo com o Antigo Testamento, o Senhor enviou as Dez pragas sobre o povo do Egito (Êxodo, capítulos de 7 a 11). Antes da décima praga, o profeta Moisés foi instruído a pedir para que cada família hebréia sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót) das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos.

Como recordação desta liberação, e do castigo do Senhor sobre o Faraó foi instituído, para todas as gerações, o Ritual Pascal.

Ritual Pascal

Cordeiro (pesah em hebraico).  Para o sacrifício deveria ser usado um cordeiro de cor branca, macho, sem defeitos, com 1 ano de idade. Esse animal ficava guardado do 10º ao 14º dia. Imolado no crepúsculo deveria ser assado inteiro e ser comido em jejum. As sobras, ao amanhecer, eram queimadas.

Pão sem fermento - ázimo, (matsah em hebraico). Deveria ser consumido por 7 dias: do 14º ao 21º dia para, simbolicamente, lembrar a rápida fuga do Egito, quando não sobrou tempo para fermentar o pão. Êxodo, 12:39.

De outra parte, devemos lembrar que o fermento era considerado impuro pelos Judeus (Levítico, 2:11 e Êxodo 12:15).

Vinho, era parte integrante do ritual e sua utilização está orientada em Êxodo, 29:40 e em Levítico, 23:13, e, especificamente, com relação ao pagamento do dízimo em Deuteronômio, 14:22 a 26.

Ervas amargas (maror em hebraico), para recordar as tristezas e amarguras no Egito: Agrião, Alface, Chicória, Coriandro, Escarola e Marroio e o Karoset (mistura picante) - para lembrar da argila amassada para as construções: Amêndoas, Tâmaras, Figos, Cidras e Vinagre. Êxodo, 1:14.

Eram observados, ainda, os seguintes preceitos:

  • Eram servidos em vasilhas de bronze, pois as de barro eram consideradas impuras.
  • Deviam tomar pelo menos 4 cálices de vinho, segundo os preceitos rabinos (ficaram pouco mais de 400 anos sob jugo egípcio).
  • Deviam estar devidamente paramentados: sandálias nos pés, cajado na mão e com os rins cingidos (dorso coberto).
A Páscoa de Jesus

Ele enviou dois dos seus discípulos. Os discípulos enviados pelo Senhor foram Pedro e João (Lucas, 22:8).

“Ide à cidade, sair-vos-á ao encontro um homem, carregando um cântaro de água...”. Segundo alguns estudiosos este homem teria sido o evangelista Marcos, porque toda vez que Jesus ia à Betânia, hospedava-se em casa de Maria Marcos, tia do evangelista. Foi fácil identificá-lo, pois o cântaro é um utensílio doméstico feminino.

A Ceia do Senhor não é uma comemoração da Páscoa judaica. Não se fala do cordeiro pascal nem dos preceitos ritualísticos e os elementos centrais são: o pão e o vinho.

Necessário se faz, primeiramente, o que é possível conhecer sobre o pão e o vinho, no contexto cultural em que Jesus viveu.

O Pão

Como já vimos anteriormente, o fermento era considerado impuro para os Judeus. Admiravelmente Jesus o utiliza simbolicamente em duas situações antagônicas.

A primeira ao falar a respeito do Reino de Deus. Assim como na semente, disse-nos Ele, existe o germe que possibilita o crescimento da planta, e na massa do pão existe o fermento onde está a força para fazer crescer a massa de farinha, nós temos o germe divino onde está a força para multiplicarmos depurando todos os nossos bons sentimentos. Mateus, 13:32 e 33.

A segunda ao falar da doutrina dos fariseus e dos saduceus que eram muito dados às práticas exteriores. Mateus, 16:5 a 12. Fanáticos e hipócritas manipulavam as leis para seus interesses. Sobre este comportamento de “fachada”, Jesus já teria chamado à atenção para a correta observação das leis. Mateus, 5:20.

Mais tarde Paulo utilizaria do mesmo recurso ao falar a respeito da imoralidade sexual entre os cristãos de Corinto alimentada pela vaidade e pelo orgulho (I Coríntios, 5:6 e 7), e ao afirmar aos Gálatas que a salvação está na justificação pela fé e não pelas práticas ritualísticas como a circuncisão (Gálatas, 5:1 a 9).

O Vinho

Um dos primeiros milagres de Jesus, pelo menos é o primeiro que ficou registrado, é a transformação da água em vinho nas bodas de Caná da Galiléia, João 2:1 a 11.

Estudando os evangelhos atentamente e sem preconceitos, temos de concluir que Jesus bebia vinho normalmente, como bebiam todos no seu contexto cultural.

Jesus e seus discípulos estavam sempre sob observação (Lucas, 6:7) e em determinadas ocasiões eram comparados com os discípulos dos fariseus e de João Batistas, Lucas, 5:33, chegando a ser acusado de ser comilão e beberão. Mateus 11:19.

Claro que não podemos aceitar esta acusação. É uma questão de interpretação. Beberrão poderia ter sido traduzido por bebedor de vinhos.

O que deve ter acontecido, é que os seguidores de João Batista imaginavam um Messias como seu Mestre, e quando viram que Jesus, em vez de se isolar no deserto ou no interior do Templo, procurou aproximar-se dos pobres, sem fazer distinção alguma, ficaram escandalizados. E ainda mais escandalizados ficaram, ao verem Jesus a beber com os pecadores e logo o acusaram de beberrão.

A propósito, com relação a esta postura, o Mestre já tinha dito que os doentes é que precisam de médicos conforme está registrado em Mateus, 9:12 e Lucas, 5:31.

A expressão mais utilizada, que é traduzida por vinho, é a palavra hebraica “yayin” equivalente à palavra grega “oinos” e à palavra latina “vinum” que deu origem à palavra vinho na nossa língua. Essa palavra aparece em Gênesis 9:21 e Gênesis 19:32, onde pelos seus efeitos, não há dúvida de que era mesmo vinho que foi consumido descontroladamente.

Em Israel naquela época, havia os que exageravam no consumo do vinho e outras bebidas de teor alcoólico muito mais elevado, e havia também os que se abstinham do vinho, Jeremias 35:12 a 15. Havia também alguns casos em que se abstinham do vinho e certas comidas, geralmente durante certo período, para se dedicarem ao Senhor. Números 6: 3 a 5.

Aliás, a Bíblia apresenta várias passagens em que se alerta para o abuso do vinho: I Coríntios 5:11 e I Coríntios 6:10, Gálatas 5:21, Efésios 5:18 e I Pedro 4:3.

Há, também, passagens em que o vinho era utilizado como medicamento: na parábola do bom samaritano, Lucas 10:34, e em que Paulo aconselha a Timóteo a beber um pouco de vinho por causa das suas enfermidades, I Timóteo, 5:23.

A palavra que aparece em Números 18:12, Neemias 10:37, Joel 2:24 foi traduzida em várias versões da Bíblia por mosto ou vinho novo. Na passagem de Joel, não há dúvida de que era mosto, pois se ainda estava a transbordar no lagar, certamente que ainda não tinha fermentado. No entanto, nas outras passagens é por vezes traduzida por vinho, ou vinho novo. Portanto, naquela época já existiam o vinho e o suco de uvas (mosto).

Uma vez que a colheita da uva se fazia só uma vez por ano, em Agosto e Setembro, o natural era terem o mosto só nessa época, nos dias em que as uvas eram pisadas.

Não havia a cultura em estufas, onde se obtém hoje uvas fora da época, como não havia, também, meios de congelamento para conservação do mosto. Eles estavam na época da Páscoa, que corresponde aos meses de Abril ou Maio. Dessa forma, na há dúvidas que Jesus utilizou o vinho em sua ceia.

Em outra oportunidade, utilizando-se do vinho e do vinho novo (mosto), Jesus faz um paralelo: o vinho representa o judaísmo, o vinho novo representa os seus ensinamentos e o odre representa as pessoas, deixando claro que aqueles já conheciam o judaísmo não queriam o cristianismo. Lucas, 5:37 a 39.

Paulo, em Atos dos Apóstolos, narra o momento em que os discípulos de Jesus, em transe mediúnico, falam em várias línguas, sendo, inclusive, motivo de zombaria: “Estão cheios de mosto” (ensinamentos de Jesus). Atos, 2: 1 a 13.

Pão e Vinho na Ceia do Senhor

Nesta evocação, existe todo um simbolismo.

Ao partir o pão e distribuí-lo dizendo “Tomai; isto é o meu corpo”, Marcos, 14:22, Jesus realiza a promessa que fizera na sinagoga de Cafarnaum: "Eu sou o pão da vida... a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida", (João, 6:48 a 56), numa alusão aos alimentos necessários à vida espiritual. E completa: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida”. (João, 6:63).

"Este é o pão que desceu do céu; não é como o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre", diz, em João - 6:51, lembrando uma citação de Salmos, 78:24 e 25.

O Mestre dos mestres reforça o chamado para sermos a luz a resplandecer diante dos homens. (Mateus 5:14-16).

"E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do pacto, que por muitos é derramado". Marcos, 14:23 e 24.

Jesus fala do pacto, aliança. É um termo que os Apóstolos não têm dificuldade em compreender, porque pertencem ao povo com quem Javé, estabelecera o antigo pacto durante o êxodo do Egito (Êxodo, capítulos 19 a 24). Estão perfeitamente presentes na sua memória o Monte Sinai e Moisés, que dessa montanha descera trazendo a Lei divina gravada em duas tábuas de pedra.

Eles não esqueceram que Moisés, tomando o "livro da aliança", o leu em voz alta e o povo concordou, declarando: "Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos" (Êxodo, 24:7). Assim, estabeleceu-se um pacto entre Deus e o seu povo, selado no sangue de animais imolados em sacrifício. Por isso, Moisés aspergiu o povo, dizendo: "Este é o sangue da aliança que Javé faz convosco, através de todas estas cláusulas" (Êxodo, 24:8).

Portanto, os Apóstolos compreenderam a referência à antiga aliança. Mas o que entenderam da nova? Certamente muito pouco. Por isso deixa-lhes prometido a vindo do Paráclito – consolador em grego – não só para recordar tudo o que já havia sido dito, mas, também, para ensinar-nos todas as coisas. (João, 14:26).

Ao compreender bem o Amor e a Caridade inseridos por Jesus na antiga lei, Paulo explica em carta aos Hebreus, que o Filho do Homem é o mediador de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna. (Hebreus, 9:15).

"Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus". Marcos, 14:25.

  • Videira: representa Deus;
  • Fruto da videira: representa Jesus;
  • Beber do fruto: desfrutar dos ensinamentos trazidos por Jesus;
  • Reino de Deus: é o momento em que atingiremos o estado evolutivo de Angelitude, que nos permitirá beber novo fruto da videira, ou seja, novos conhecimentos adaptados ao nosso estado evolutivo. Mateus, 26:29.

O Pão e o Vinho simbolizam a Lei de amor e da união que deve reinar entre os homens. A ceia é o derradeiro e solene apelo à Lei de união – fraternidade universal. O Mestre permite que Judas se sente à mesa com os onze discípulos, e partilhe com estes do mesmo alimento e beba pelo mesmo cálice.

“..., fazei isto em memória de mim...” Lucas, 22:19.

Vamos comemorar a Ceia Pascal, em memória do mestre, mas pela prece do coração apoiada em atos de uma vida íntegra, pura, humilde, ativa e consagrada ao bem de todos os membros da grande família humana.

João Batista, vendo Jesus passar, profetiza o seu martírio dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus”, João, 1:36. De fato, o Mestre seria “imolado” na páscoa.

Oh! Cordeiro Divino, sê conosco sempre.

Marcos José Ferreira da Cruz Machado
Belo Horizonte (MG)
JUN/2009

(1) – “A Caminho da Luz”, Emmanuel/Chico Xavier e “Os Exilados da Capela”, Edgard Armond.

Referências:

Vinho – O crente pode beber? - Camilo Vicente António da Silva Coelho. Endereço eletrônico: Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas