Revista Super Interessante, setembro de 2002

    Esclarecimentos a respeito da reportagem sobre o Espiritismo:

    O passe não é um dos elementos mais fortes do Espiritismo, como foi dito. O Espiritismo usa a imposição de mãos como Jesus o fez e recomendou que se fizesse. Depois do advento do Espiritismo é que os Carismáticos descobriram o passe. Mas o elemento mais forte do Espiritismo, o seu objetivo principal, é a evangelização das criaturas, sejam encarnadas ou desencarnadas.

    Kardec não é o autor do Espiritismo, portanto a expressão: criado por um pedagogo... não corresponde àquilo que a própria reportagem diz a respeito da pesquisa levada a efeito por ele. Kardec apenas publicou os diálogos que manteve com os Espíritos, aduzindo a eles comentários seus.

    Kardec chegou a estudar Medicina, mas logo perdeu o interesse pelo mundo concreto. Essa frase sugere que Kardec passou a viver num mundo etéreo, depois que entrou em contato com os espíritos, o que não é verdade. Ele tinha 51 anos, já era um educador respeitado, desde a sua juventude, com mais de uma dezena de títulos publicados, premiado duas vezes pelo governo francês por suas teses sobre Educação, quando foi convidado a pesquisar o fenômeno que, embora tenha ocorrido sempre na história da Humanidade, àquela época tomou um volume nunca visto dantes. Continuou sendo o mesmo homem dedicado à Educação. Não se tornou um místico depois de dialogar com os espíritos.

    A leitura dos livros básicos do Espiritismo é uma das exigências da religião iniciada por Allan Kardec. A afirmativa é equivocada, pois sugere uma iniciação para se ingressar no Espiritismo, que não exige nada de ninguém. A adesão a ele é inteiramente livre.

    Jesus Cristo não é o enviado de Deus à Terra. É apenas um espírito mais evoluído que serve de guia para toda a humanidade. Jesus não é apenas um espírito mais evoluído. Conquanto, segundo ensinam os Espíritos, trata-se de um irmão nosso, filho de Deus, como nós, sua evolução – para não dizer perfeição – se perde na noite dos tempos. Nenhum espírito que já se encarnou na Terra se lhe aproxima em perfeição.

    Os espíritas buscam o cristianismo para se legitimarem. Essa a posição do Prof. Pierucci, que o Repórter transcreve, sem comentários, adotando-a, portanto, vez que o declara um dos maiores estudiosos da religiosidade brasileira. A isso poderíamos responder dizendo que o Espiritismo não se legitima no Cristianismo simplesmente porque se constitui na expressão mais autêntica do próprio Cristianismo. Pela ênfase que dá à necessidade de a criatura buscar o auto-aperfeiçoamento e o serviço a Deus na pessoa do próximo, conforme ensinou e exemplificou Jesus, pode-se dizer que traz o Cristianismo de volta na sua pureza, simplicidade, objetividade e pujança originais.

    As afirmações do Prof. Pierucci são destituídas de base. Onde ele se fundamentou para dizer que o Espiritismo não é uma religião cristã? Quer nos parecer que sua visão de Cristianismo é plenamente equivocada. Ser cristão é aceitar as propostas de progresso espiritual, no serviço a Deus na pessoa do próximo, conforme propôs Jesus. Todo aquele que aceita a mensagem de Jesus e busca segui-la, independentemente de filiação a qualquer grupo religioso, é, por isso mesmo, cristão. Ninguém no mundo tem autoridade para legitimar alguém como cristão, distribuindo para isso, carteira ou diploma.

    Seria interessante, que o ilustre Repórter lesse algumas obras espíritas ou assistisse a algumas palestras, ou a algumas aulas de evangelização da criança, do jovem e do adulto, a fim de inteirar-se de que o Espiritismo não se encosta em nenhuma religião para legitimar-se.

    O Espiritismo busca aplicar as verdades religiosas à vida diária, como fez Jesus, que ficou sempre longe dos templos, dos rituais, das solenidades, do manuseio de objetos de culto, do uso de bebida, de vela, de incenso, de fumaça, de imagens etc. O Espiritismo não tem sacerdócio organizado, não tem profissionais religiosos. Por isso talvez incomode alguns dos maiores estudiosos da religiosidade brasileira.

    A título de desafio, pode-se até dizer que não há nenhuma prática espírita que não se legitime no Novo Testamento.

    Pierucci afirma que esse vínculo com a Igreja Católica pregado pelos espíritas serviu, durante décadas, para lutar contra a discriminação: O Espiritismo faz força para não parecer uma religião exótica. Se essa frase em negrito reproduz exatamente o pensamento do Prof. Pierucci, acho que a USP não anda bem de estudiosos da religiosidade brasileira, conforme se lê na sua equivocada reportagem, pelo seguinte: Seria de se perguntar, qual o vínculo do Espiritismo com a Igreja Católica? Ou será que o Prof. Pierucci julga Catolicismo e Cristianismo como sinônimos? Nesse caso, onde ficariam as Igrejas Protestantes?

    O que de exótico o ilustre Professor achou no Espiritismo? Será que ele o julga exótico pelo fato de não ter templos luxuosos, nem rituais, nem imagens, nem usar velas, incenso, vinho, conforme dito acima? Será que a ausência de sacerdócio organizado, do uso de roupas especiais para os vários cultos e ministração de sacramentos, isso é que o torna exótico? Essas práticas, usuais em várias correntes cristãs, parece-nos, não foram aprendidas de Jesus...

    O Catolicismo no Brasil sempre favoreceu a mistura. A ser exata essa afirmativa atribuída à médica e pesquisadora Eneida D. Gaspar, que declara conter a Umbanda uma mistura com o Espiritismo, fica evidente o desconhecimento também da autora do "Guia de Religiões Populares do Brasil" em relação ao Espiritismo. Fica evidente que ela não sabe que o que há de comum entre o Espiritismo e a Umbanda é apenas a mediunidade. Quando ela fala da mistura com elementos cristãos, também se equivoca, pois quer dizer católicos, o que não é a mesma coisa!

    Típico rebento do século XIX – o mesmo das teorias evolucionistas de Charles Darwin (...) o Espiritismo consegue a proeza de mesclar o Catolicismo primitivo (caridade), Budismo (reencarnações), Darwin (evolucionismo) e um caldeirão de credos esotéricos que estavam em voga nos anos 1800. (...).

    Deixo de transcrever o restante do parágrafo para não desperdiçar tempo, repetindo incongruências, fruto da desinformação de um Repórter que apresenta um assunto que não domina, nem superficialmente.

    Será que os católicos não vão protestar contra essa declaração que sua religião só fazia caridade nos tempos primitivos. E é só o Budismo que fala em reencarnação? Se tivesse lido "O Livro dos Espíritos" saberia que ali é apresentada a tese mais clara, mais consentânea com a lógica, com a justiça e misericórdia divinas que já foi apresentada ao mundo ocidental para a explicação das diferenças sociais, morais e intelectuais entre as criaturas. Hoje, a maioria do povo brasileiro aceita a tese das vidas sucessivas e os cientistas que ainda não aceitam já não mais se expressam com tanta veemência como no passado... Quanto ao evolucionismo, basta lembrar que o Espiritismo surgiu em 1857 e a obra de Darwim foi publicada dois anos depois.

    Se tivesse lido "O Livro dos Espíritos", somente esse livro, ou, ao menos, o seu índice, o ilustre Repórter saberia quais os assuntos tratados nessa obra, o que ter-lhe-ia evitado o infeliz parágrafo a que aludimos acima.

    A idéia de Deus numa visão cósmica, em oposição à de um simples soberano medieval terráqueo, conforme era mostrado pelas religiões cristãs, já seria o suficiente para demonstrar que o Espiritismo foi buscar suas verdades nas afirmativas de Jesus, quando disse: Há muitas moradas na casa de meu Pai. Além disso, revive o Pai amoroso, misericordioso, conforme ensinou Jesus, em confronto com o Deus vingativo e cruel, capaz de mandar Seus filhos para um Inferno de penas eternas, ensinado pelos teólogos. Isso já seria o suficiente para merecer o respeito do apressado escriba.

    Se tivesse lido apenas a 3ª Parte de "O Livro dos Espíritos", denominada "Das Leis Morais", teria oportunidade de ver aí tratados, à luz do mais puro sentimento cristão, pela primeira vez na história do Cristianismo, assuntos como: direitos do trabalhador, direitos da mulher, escravidão, liberdade de pensamento, destruição necessária e abusiva, duelo e pena de morte, entre outros. Pela primeira vez, surge no cenário cristão uma obra que discute temas sociais, contrariando as posturas do materialismo político e do academicismo farisaico, por ter a coragem de discutir esses temas à luz da crença em Deus.

    Estude, Senhor Leandro, apenas "O Livro dos Espíritos", que não foi citado na bibliografia sugerida no seu trabalho, e terá elementos para uma reportagem sem precedentes, pois verá o quanto os conhecedores de religiões, em quem se baseou, desconhecem o Espiritismo!

José Passini
Juiz de Fora MG